Rondônia tem 9 dos 10 maiores municípios sem estrutura legal para ouvir crianças vítimas de abuso sexual

compartilhe esta postagem

Score médio de proteção é 35,9 em 100

Relatório inédito avalia a rede de proteção nos dez maiores municípios do estado e encontra descumprimento sistemático da legislação federal

Sete anos após a aprovação da lei federal que obriga municípios e estados a estruturarem a escuta especializada e o depoimento especial de crianças vítimas de violência, nove dos dez maiores municípios de Rondônia ainda não possuem sala adequada, equipe multidisciplinar treinada nem protocolo formalizado para proteger essas crianças durante o atendimento institucional.

A constatação é de uma auditoria intersetorial inédita, conduzida pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (CEDECA) de Rondônia, organização da sociedade civil sem fins econômicos, que avaliou Porto Velho, Ji-Paraná, Ariquemes, Vilhena, Cacoal, Rolim de Moura, Jaru, Guajará-Mirim, Machadinho D’Oeste e Buritis — cidades que somam cerca de 77% da população estadual.

O resultado é grave: o score médio de proteção integral dos dez municípios é de 35,9 pontos em uma escala de 100, classificação considerada “inadequada” pela metodologia utilizada.

Apenas Porto Velho, com 57 pontos, alcança o nível “regular” — ainda abaixo do patamar mínimo de adequação, fixado em 60 pontos. Buritis, com 21, e Machadinho D’Oeste, com 23, registram os piores índices.

“O que encontramos não é um conjunto de falhas administrativas pontuais. É uma omissão estrutural e sistemática que coloca crianças e adolescentes em risco todos os dias”, afirma Thais Campos, presidenta do CEDECA-RO.

“Quando uma criança que foi abusada precisa contar o que aconteceu em cinco salas diferentes, para cinco profissionais diferentes, sem nenhum preparo especializado, o Estado está agredindo essa criança uma segunda vez. É revitimização institucional, e ela é ilegal desde 2017.”

O estado que não notifica

O contexto epidemiológico torna os achados ainda mais alarmantes.

Rondônia é o segundo estado do Brasil com maior taxa de estupro de vulnerável, com 70,55 ocorrências por 100 mil habitantes, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública de 2025 — atrás apenas de Roraima.

Mas os pesquisadores advertem que esse número já é uma subestimativa severa: especialistas estimam que apenas entre 7% e 15% dos casos reais chegam a algum registro oficial.

A subnotificação não é aleatória. Ela é estrutural. Em 2024, Rondônia foi o único estado da região Norte que não enviou ao governo federal dados desagregados sobre estupro de vulnerável — falha que o relatório classifica como evidência de “apagamento estatístico institucional”.

Nenhum dos dez municípios auditados publica dados sobre violência sexual contra crianças com desagregação por sexo, raça/cor, faixa etária ou local de ocorrência.

Vinicius Miguel, integrante da organização CEDECA/RO, professor da Universidade Federal de Rondônia e responsável pela pesquisa

“A subnotificação em Rondônia não é só consequência da violência. Ela é parte do problema”, diz Vinícius Miguel, responsável pela elaboração técnica do relatório.

“Quando um município não coleta dados, não publica o que coleta e não forma os profissionais para identificar os casos, está construindo ativamente um sistema de invisibilização. E invisibilidade, nesse contexto, significa impunidade para o agressor e abandono para a vítima.”

Sete anos de descumprimento

A Lei 13.431, aprovada em abril de 2017 e regulamentada pelo Decreto 9.603/2018, estabelece com precisão as obrigações dos entes públicos: sala com infraestrutura adequada, equipe multidisciplinar capacitada, protocolo integrado entre saúde, assistência social, segurança pública e sistema de justiça, e vedação expressa à multiplicidade de oitivas não especializadas. O prazo para implementação não era discricionário.

A auditoria verificou que, dos nove municípios que descumprem a lei, oito sequer iniciaram qualquer processo documentado de adequação.

Em Jaru, Guajará-Mirim, Machadinho D’Oeste e Buritis, municípios com populações que variam entre 34 mil e 55 mil habitantes, não foi identificada nenhuma ação, protocolo ou estrutura voltada ao tema.

A situação é agravada pelo fato de que todos os dez municípios também descumprem a Lei 13.935/2019, que obriga a presença de psicólogos e assistentes sociais nas escolas públicas de educação básica — profissionais que poderiam identificar precocemente casos de violência.

E nenhum dos dez possui Plano Municipal de Enfrentamento à Violência Sexual aprovado e em vigor, conforme exigência do Plano Nacional (PNEVSCA) e das resoluções do CONANDA. Se dispõe da documentação, ela não é disponibilizada em sítios eletrônicos da Prefeitura e nem em murais fixos.

“Quando somamos tudo isso, chegamos a uma conclusão que é difícil de ouvir, mas precisa ser dita: em Rondônia, hoje, uma criança que foi vítima de abuso sexual tem altíssima probabilidade de não ser identificada, não ser atendida adequadamente, não ter o seu agressor investigado com evidências técnicas, e ainda ser revitimizada pelo próprio sistema que deveria protegê-la”, avalia Thais Campos.

“Isso não é fatalidade. É resultado de escolhas políticas e de omissões que podem e devem ser responsabilizadas.”

Conselhos tutelares invisíveis

Entre as descobertas mais impactantes do relatório está a ausência quase total de informações públicas sobre os Conselhos Tutelares dos municípios.

Em Jaru, Guajará-Mirim, Machadinho D’Oeste e Buritis, não foi localizada quase nenhuma informação nos canais eletrônicos oficiais, nem endereço, nem telefone, nem e-mail, nem formulário eletrônico online, nem nome dos conselheiros em exercício e/ou data de início e término de mandatos.

O Conselho Tutelar é, pela estrutura do ECA, o primeiro elo da rede de proteção, o órgão que uma família, uma professora ou uma criança deve acionar ao primeiro sinal de violência.

A sua invisibilidade pública não é apenas uma falha de comunicação: é uma barreira concreta que impede o acionamento do sistema de proteção no momento mais crítico.

“Uma mãe de Buritis que descobre que o filho foi abusado não tem como ligar pro Conselho Tutelar porque o número não existe em nenhum portal público”, observa Vinícius Miguel.

“Não é que o serviço funcione mal. É que ele é inacessível por design e falta de transparência. Isso viola a Lei de Acesso à Informação, viola o ECA, e viola o princípio constitucional da publicidade administrativa. E é corrigível em 24 horas, basta publicar.”

Populações mais vulneráveis, menos protegidas

A análise interseccional do relatório evidencia que a desproteção não é uniforme: ela é mais intensa exatamente onde a vulnerabilidade já é maior. Crianças indígenas — especialmente em Guajará-Mirim, município de fronteira com a Bolívia que concentra múltiplos povos indígenas — estão praticamente fora de qualquer rede de proteção formalizada.

Nenhum município possui protocolo de atendimento culturalmente adaptado. A ausência de articulação entre SEAS, DSEI e FUNAI é documentada como falha estrutural grave.

Crianças negras aparecem sub-representadas nas notificações — não porque sejam menos vitimadas, mas porque o racismo institucional opera como filtro: menor acesso a serviços de qualidade, desconfiança histórica das comunidades negras em relação às instituições, e ausência de profissionais negros e indígenas nas equipes de atendimento.

“A criança indígena de Guajará-Mirim que sofre abuso sexual não tem sala de depoimento especial, não tem profissional capacitado, não tem atendimento de saúde protocolar, não tem Conselho Tutelar acessível e não tem dados sendo coletados sobre ela. É uma invisibilidade absoluta”, diz Thais Campos. “E isso não é descuido. É o resultado previsível de décadas de política pública que trata esses territórios como periféricos.”

O que o relatório recomenda

O documento apresenta um plano corretivo com oito ações prioritárias escalonadas por prazo de 30 dias a 12 meses, além de um conjunto de medidas judiciais e extrajudiciais.

Entre as recomendações imediatas estão a publicação dos dados desagregados de violência sexual nos portais de transparência municipais e estaduais (prazo sugerido: 30 dias) e a criação de Comitês Intersetoriais Municipais com reuniões mensais obrigatórias e publicação de atas (60 dias).

Para o prazo de seis meses, o relatório exige a implementação das salas de depoimento especial em todos os municípios com mais de 30 mil habitantes e a extensão da cobertura da assistência social para zonas rurais, ribeirinhas e indígenas com equipes volantes do CREAS.

No campo judicial, o relatório identifica fundamento para Ação Civil Pública com pedido de obrigação de fazer, além de litigância estrutural nos moldes da ADPF 347 e representação ao Comitê dos Direitos da Criança da ONU e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

“O prazo para adequação não é em algum momento futuro. Era em 2017”, diz Vinícius Miguel.

“Cada mês de omissão é um mês em que crianças rondonienses estão sendo revitimizadas, suas denúncias não estão sendo colhidas adequadamente, e seus agressores estão se beneficiando de um sistema que, na prática, não os alcança. A responsabilização judicial, política e social é o próximo passo natural.”

O relatório completo, com metodologia, matrizes de avaliação, plano corretivo e fundamentos para ação judicial, estará disponível para consulta pública e será encaminhado ao Ministério Público de Rondônia, ao CONANDA, ao CNJ e às prefeituras dos dez municípios auditados.

Sobre o CEDECA-RO O Centro de Defesa da Criança e do Adolescente de Rondônia atua na defesa, promoção e controle dos direitos de crianças e adolescentes no estado, com foco em populações em situação de vulnerabilidade, especialmente nas regiões Norte e de fronteira.

Não recebeu e não recebe qualquer recurso público (seja de fundos ou de emendas parlamentares ou de qualquer órgão do Executivo) para realizar estas atividades.

matérias relacionadas

Jornalista registra BO contra vereador por agressão; vereador registra BO por extorsão

Proprietário de site alega ter sido agredido por Marcos...

Mais uma derrota do vice-governador

Ministro nega a tese de perseguição política devido as...

Waldo Alves retorna ao cenário político em Rondônia

Após se afastar de projetos políticos para atuar na...

Thiago Tezzari tenta entrar em coordenação de pré-campanha, mas não consegue

Devido a alguns problemas ele não foi autorizado a...

Rafael é o Fera insinua que servidores do DER roubaram madeira

Desinformado, o deputado federal não sabia que o DER...

Nova 364 te vigia e ainda comete um assalto legalizado

A empresa sabe exatamente onde você está. Quem assegura...
spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_img