terça-feira, fevereiro 17, 2026
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    Quando o saneamento vira palco

    Há processos públicos que caminham.

    E há processos que são conduzidos.

    A concessão do saneamento em Rondônia passou por um período curioso. Estudos iam e voltavam. Modelagens eram questionadas. Premissas revisadas. O cronograma parecia elástico demais para um projeto dessa magnitude.

    Oficialmente, eram divergências técnicas.

    Nos bastidores, falava-se em outra coisa: timing político.

    A percepção de que a decisão definitiva só deveria acontecer sob outra configuração de governo nunca foi assumida publicamente, mas circulava com naturalidade nos corredores. Como se o momento certo não fosse o melhor para o Estado, mas o mais conveniente para determinados interesses.

    O valor da outorga, inicialmente considerado modesto por parte da própria equipe técnica, também gerou desconforto. Havia quem dissesse que o Estado estava subestimando seu próprio ativo. Havia quem defendesse cautela. E havia quem simplesmente travasse o processo.

    Entraves surgiam em sequência quase matemática. Pareceres demoravam. Exigências novas apareciam. Ajustes nunca eram suficientes.

    Até que a condução mudou.

    E o que antes parecia difícil tornou-se possível. O modelo foi revisto. As premissas recalculadas. O apetite de mercado reapareceu. E o valor inicial da outorga surpreendeu.

    Quando uma outorga cresce de forma expressiva após mudança na liderança do processo, a pergunta não é política. É lógica: o que estava errado antes?

    Não há, até aqui, acusação formal ou decisão judicial que aponte ilegalidades no caso local. Mas o contexto nacional pesa. A própria empresa envolvida já admitiu, em acordo de leniência homologado, práticas irregulares em outros estados. Isso não prova nada em Rondônia. Mas exige vigilância redobrada.

    Concessões bilionárias não se resumem a contratos. Elas definem tarifas, investimentos, prioridades e o futuro da infraestrutura por décadas.

    Quando um processo parece travado até que o ambiente político se altere, quando avaliações técnicas mudam drasticamente após substituições estratégicas, e quando interesses cruzam o debate público de forma silenciosa, a desconfiança deixa de ser teoria e vira obrigação institucional.

    O saneamento não é palco.

    É serviço essencial.

    E onde há sombra demais, a transparência precisa entrar com luz alta.

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