Um ex-secretário adjunto está apreensivo, dizem, porque foi denunciado no esquema
O propinoduto passou por Rondônia? No CPA circulam nomes de gente envolvida com a empresa
Quando o saneamento vira palco
Há processos públicos que caminham.
E há processos que são conduzidos.
A concessão do saneamento em Rondônia passou por um período curioso. Estudos iam e voltavam. Modelagens eram questionadas. Premissas revisadas. O cronograma parecia elástico demais para um projeto dessa magnitude.
Oficialmente, eram divergências técnicas.
Nos bastidores, falava-se em outra coisa: timing político.
A percepção de que a decisão definitiva só deveria acontecer sob outra configuração de governo nunca foi assumida publicamente, mas circulava com naturalidade nos corredores. Como se o momento certo não fosse o melhor para o Estado, mas o mais conveniente para determinados interesses.
O valor da outorga, inicialmente considerado modesto por parte da própria equipe técnica, também gerou desconforto. Havia quem dissesse que o Estado estava subestimando seu próprio ativo. Havia quem defendesse cautela. E havia quem simplesmente travasse o processo.
Entraves surgiam em sequência quase matemática. Pareceres demoravam. Exigências novas apareciam. Ajustes nunca eram suficientes.
Até que a condução mudou.

E o que antes parecia difícil tornou-se possível. O modelo foi revisto. As premissas recalculadas. O apetite de mercado reapareceu. E o valor inicial da outorga surpreendeu.
Quando uma outorga cresce de forma expressiva após mudança na liderança do processo, a pergunta não é política. É lógica: o que estava errado antes?
Não há, até aqui, acusação formal ou decisão judicial que aponte ilegalidades no caso local. Mas o contexto nacional pesa. A própria empresa envolvida já admitiu, em acordo de leniência homologado, práticas irregulares em outros estados. Isso não prova nada em Rondônia. Mas exige vigilância redobrada.
Concessões bilionárias não se resumem a contratos. Elas definem tarifas, investimentos, prioridades e o futuro da infraestrutura por décadas.
Quando um processo parece travado até que o ambiente político se altere, quando avaliações técnicas mudam drasticamente após substituições estratégicas, e quando interesses cruzam o debate público de forma silenciosa, a desconfiança deixa de ser teoria e vira obrigação institucional.
O saneamento não é palco.
É serviço essencial.
E onde há sombra demais, a transparência precisa entrar com luz alta.




